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sexta-feira, 26 de junho de 2015

Proprioceção

Este é mais um tema assíduo nos blogs relativos à medicina manual, e se não é, deveria ser. Isto porque a proprioceção é um aspeto fundamental para a definição da nossa postura, e para a manutenção dos nossos movimentos corporais.

A grande maioria dos autores usa a palavra Cinestesia como um sinônimo de Proprioceção. Também há autores que atribuem outras palavras para definir o mesmo, mas proprioceção é a mais utilizada.

Na publicação Posturologia este tema já foi tocado, mas associado ao Sistema Tónico Postural (STP). Vamos agora abordar a proprioceção individualmente.

Para entendermos rapidamente o que é a proprioceção, basta fechar os olhos e percebermos que apesar de não estarmos a ver os membros do nosso corpo continuamos a ter consciência da sua posição. Se quisermos juntar as nossas mãos com os olhos fechados, elas vão ter ao encontro uma da outra. Assim como até podemos caminhar com os olhos fechados (num espaço onde não haja obstáculos) sem grande dificuldade. Isto é proprioceção numa pessoa saudável.

Proprioceção é a aptidão que temos em perceber onde está o nosso corpo, qual a posição dos nossos membros, com que velocidade nos devemos mover, qual o nível de tensão que deve ser exercida pelos músculos, qual a amplitude que cada articulação deve tomar, e como devemos coordenar os movimentos de forma a realizar qualquer tipo de ação.

Essa perceção é possível devido aos propriocetores que se encontram espalhados pelo corpo. Os propriocetores são um dos tipos de receptores sensorais, e são os responsáveis por enviarem informação propriocetiva ao Sistema Nervoso Central (SNC).

Os principais propriocetores são:
  • Fusos neuromusculares: Transmitem informação sobre o comprimento do músculo;
  • Órgãos tendinosos de Golgi: Dão informação sobre o grau de tensão em cada segmento;
  • Corpúsculos de Paccini: Informam sobre trocas rápidas de pressão;
  • Terminações de Ruffini: Detetam pressão exercida constantemente;
  • Propriocetores do sistema vestibular: Enviam informação sobre os movimentos da cabeça;
  • Propriocetores do pescoço: Relatam informação referente à orientação da cabeça em relação ao corpo.

Os proprioceptores estão localizados nos músculos, tendões, articulações (e tecidos em volta), cápsulas, ligamentos, membranas fibrosas, e no ouvido interno.

São estimulados com o movimento corporal e/ou com a pressão. A partir daí começam a enviar informação ao SNC que depois produz uma resposta a esse envio de informação, com o objetivo de coordenar todos os movimentos corporais, definindo a nossa postura e mantendo-nos em equilíbrio.

Esta ação processa-se toda a nível subconsciente, pois normalmente não temos controlo sobre ela. Vou usar um exemplo que não corresponde exatamente à forma como as coisas funcionam, mas serve para se perceber melhor todo o processo: os proprioceptores localizados nas estruturas do pé enviam informação para o SNC, daí o SNC responde como o pé se deve localizar, e tudo isto se desenrola de forma automática, contudo se quisermos posicionar o pé de outra forma, é possível fazê-lo, podemos alterar a posição para a que quisermos, pelo menos enquanto estivermos "atentos" a isso. Assim que a nossa concentração for dirigida a outro sitio, o pé volta a ficar na posição indicada pelo SNC.




Porque é importante ter esta noção?

Imaginemos que há um problema com a proprioceção, imaginemos que os propriocetores, por exemplo, do pé, estão lesionados, e não estão a enviar informação, ou enviam informação que não é a correta. O SNC vai basear o posicionamento do pé na informação incorreta, isso originará que o pé fique numa posição incorreta, e daí podem advir uma quantidade de compensações e lesões, tudo por um problema na proprioceção.

A proprioceção pode ser danificada de várias formas, mas a mais usual é através de lesões que ocorrem na zona em questão. Vamos usar novamente o exemplo do pé, ao fazer uma entorse no tornozelo a proprioceção, regra-geral, é sempre afetada, mas nem sempre é tratada. O tornozelo melhora, e é verdade que melhora, mas uma das sequelas com que fica é na proprioceção, e daí começa todo o processo que descrevi nos parágrafos anteriores. Com facilidade pode reincidir a lesão uma e outra vez enquanto não se tratar a proprioceção.

E é possível tratar a propriceção, é possível recuperar os propriocetores, esse é um dos objetivos do meu trabalho clínico: a estimulação, recuperação, e posterior desenvolvimento, da proprioceção. De acordo com os propriocetores que estejam afetados, assim deverá ser o tratamento, pois existem técnicas e exercícios específicos para estimular os diferentes tipos de propriocetores.

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